17.9.03

Isso é que é "construir o futuro"


Vou colocar o artigo na íntegra porque não achei o link (veio na newsletter da Caros Amigos )


" ALEGRIA DE TER SIDO GOVERNO

por Diogo Moysés


No início deste ano falava-se sobre a "quarentena" que ministros e dirigentes de instituições públicas teriam de cumprir antes de ingressar em instituições privadas. Evitaria um tipo de promiscuidade conhecida na política brasileira. Foi assim com duas das figuras mais importantes do círculo financeiro da equipe de Fernando Henrique: Pedro Malan e Armínio Fraga. Passados o tempo que a lei exige, Malan acomodou-se numa cadeira da diretoria do Unibanco e Armínio abriu uma consultoria que ensina a investidores como lucrar no mercado financeiro às custas da sangria do dinheiro estatal. Atividades totalmente legais, afinal, estão voltando para onde estavam antes de prestar serviço ao povo brasileiro.
Surfando em onda semelhante, mas com biografia ligada ao serviço público, Paulo Renato Souza, ministro da educação por oito anos, acaba de abrir a "Paulo Renato Souza Consultoria" que, segundo ele mesmo define "tem por objetivo buscar boas oportunidades para os fundos de investimento". Traduzindo: um negócio que aponta aos investidores do mercado financeiro oportunidades de geração de lucros em instituições semi-falidas de ensino superior. A lógica é simples. Instituições universitárias privadas são compradas por estrangeiros cheios da grana, que dão uma garibada em sua imagem publicitária e revendem por um preço "multiplicado". É como uma loja de carros usados, que compra um carro por um preço abaixo do valor de tabela, dá aqueles retoques básicos, lava, pinta, remenda, e revende por um preço muito maior. Neste negócio automotivo, a garibada é chamada de "perfumaria". Existem até profissionais especializados, que cobram 500 reais para a execução do serviço.
Paulo Renato nunca escondeu sua predileção pelo entendimento da educação como mercadoria, um serviço, bem de consumo como outro qualquer. Promoveu a abertura indiscriminada de cursos em instituições privadas, sem qualquer critério para o controle de qualidade. Patrocinou a expansão de faculdades e universidades igualmente particulares com dinheiro do BNDES. Distribuiu bolsas de estudo para estudantes dessas instituições, garantindo o lucro dos mercadores da educação. Em São Paulo, por exemplo já existem mais vagas nesses cursos do que gente para preenchê-las. Ao mesmo tempo, as universidades federais, "ninhos das elites", afundam-se em problemas gerados diretamente pela falta de verbas.
Agora, passada sua "quarentena", Paulo Renato aventura-se em outra empreitada profissional: ganhar rios de dinheiro em cima do modelo falido que construiu. Vai dizer para o tal JP Morgan, maior investidor do mundo nesse ramo de "private equity", quais são as "oportunidades de perfumaria" no universo da educação, para fazer dinheiro virar mais dinheiro. Em contrapartida, leva, no mínimo, uma bela comissão das negociações.
Paulo Renato não levará vantagem por ter "informações privilegiadas", motivação da instituição da quarentena. Colocará dinheiro no bolso por ter implementado uma política, criado um sistema, advogado uma causa. O que é muito pior.
A defesa do ex-ministro? "Em 1997, nós regulamentamos. Até então, o ensino superior não podia ter fins lucrativos".
Ser governo tem suas vantagens. Deixar o governo, nem se fala"


Diogo Moysés é jornalista.